Em 18 de julho de 1975, a mesma massa de ar responsável pela formação da neve em Curitiba, congelou a seiva das plantas no Norte do Paraná e a geada negra dizimou cafezais inteiros.
O dia seguinte ao evento que devastou a economia do norte e noroeste do Paraná. Foi com imagens, mostrando plantações de café completamente cristalizadas no gelo, que jornais locais descreveram o que ficou conhecido como “geada negra”, em 18 de julho de 1975. Os municípios de Maringá, Londrina e outros produtores de café tiveram suas lavouras completamente devastadas.
A Geda Negra fez com que os campos de produção de café amanhecessem cobertos por uma camada de gelo que queimou não apenas as folhas, mas também os caules e raízes das plantas. Naquele período, a produção de café era a principal atividade comercial do Paraná, com as produções concentradas principalmente no norte do Estado.
Os produtores, de uma hora para a outra, perderam completamente suas produções e se viram forçados a desbravar novas possibilidades de cultivo. Foi daí que a cultura cafeeira do Paraná foi substituída, em várias localidades, pela soja. Historiadores apontam a geada negra como um divisor de águas não só para a economia, mas também para a geografia do Paraná, que naquele momento viu expandir as produções para várias localidades, além da própria diversificação da cultura de produção.
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NO OESTE DO ESTADO TAMBÉM OCORRERAM PREJUÍZOS
Mas não foi apenas no Norte do Estado que lavouras inteiras de café foram dizimadas. Em Assis Chateaubriand, no Oeste do Paraná, era comum em quase todas as propriedades rurais, em especial na cabeceira dos sítios, haver plantações de café. Poucos dias após a grande catástrofe, o que se via era homens com machado em mãos cortando os pés de café. Nessa época, era raro quem tivesse à disposição uma motosserra.
NEVE NA CAPITAL DO ESTADO
Em 16 de julho de 1975 chovia em partes do Rio Grande do Sul ao Paraná, enquanto uma massa de ar extremamente frio e seco atingia o setor central da Argentina. Durante a madrugada essa massa de ar frio entrou no extremo-sul do País. No dia 17, Curitiba amanheceu com chuvisco. Neve e chuva congelada foram observadas a partir das 8h. Com a visibilidade reduzida e temperaturas próximas a 0°C, entre 13h e 15h a neve se tornou mais intensa, criando o fenômeno meteorológico mais marcante da memória recente dos curitibanos.
Na Capital, a população comemorava a alegria de um momento marcante com a família, montando bonecos de neve e registrando os momentos em belas fotografias. No dia seguinte, 18 de julho de 1975, ocorreu um dos episódios mais tristes do agronegócio paranaense. A mesma massa de ar polar que colaborou para formação da neve, com rajadas de vento intensas e ar muito muito frio, congelou a seiva das plantas no Norte do Paraná e a geada negra dizimou cafezais inteiros.
De acordo com o Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental (Simepar), a formação da neve requer a combinação de fatores atmosféricos fundamentais, quase como uma fórmula precisa. Desde a superfície terrestre até 3000 metros de altura, é preciso ter temperaturas do ar abaixo de 0°C e a presença de ar úmido capaz de promover a sublimação do vapor d’água para cristais de gelo. Este é o ambiente ideal para a formação e ocorrência de precipitação de flocos de neve
“Quando esta camada se encontra fria e saturada de umidade como descrito acima, a possibilidade de formação do fenômeno é elevada, com mais ênfase em situações de transporte de umidade com bandas de precipitação”, explica Leonardo Furlan, meteorologista do Simepar.
O processo de formação dos flocos de neve ocorre dentro das nuvens, com a formação de cristais de gelo. “Os cristais de gelo crescem através da sublimação, ou seja, troca da fase da água do vapor d’água para o gelo. Os cristais também podem crescer ao colidirem uns com os outros ou ao entrarem em contato diretamente com a água super-resfriada”, detalha Furlan.
Assim que os flocos de neve se formam, crescem e ficam pesados ao ponto de não ficarem suspensos no ar, eles precipitam em direção à superfície. Se a temperatura se mantiver abaixo de zero grau ou muito próximo a esse valor, a chance do floco cair integralmente é maior.
HÁ 50 ANOS – Em 17 de julho de 1975 ocorreu uma potente incursão de ar frio pelo Centro-Sul da América do Sul, com um robusto sistema de alta pressão, associado com massas de ar frio de grande intensidade. Tudo começou no dia 12 de julho, quando uma frente fria avançou pelo extremo sul do continente, enquanto o Sul do Brasil enfrentava variação de nuvens e chuvas.
“No dia 14 de julho, o avanço do sistema frontal trouxe o aumento das instabilidades na região. Na sequência, no dia 15 de julho, se iniciava o aprofundamento de um sistema de baixa pressão na altura do Uruguai. E a oeste daquele sistema, o ar frio avançava pelo centro-norte da Argentina, Paraguai e Bolívia, como uma bolha de ar frio”, lista Furlan.
Um dia antes do grande episódio de neve em Curitiba, o ar frio e seco já dominava boa parte do centro e centro-sul da Argentina, enquanto o Rio Grande do Sul ainda tinha muitas nuvens e temperaturas abaixo de 15 °C. O Paraná ainda estava sob influência de muita cobertura de nuvens e de chuva, com o ar frio avançando gradualmente, principalmente pelas regiões oeste, sudoeste e sul, com queda mais significativa na área da Capital paranaense a partir do final da noite.
Os ventos em níveis altos da troposfera eram mais intensos na altura da Região Metropolitana de Curitiba, e a umidade era significativa, principalmente nas primeiras horas do dia. A Capital registrava temperaturas próximas a 0°C com chuva leve, o que permitiu a precipitação invernal.
“O gradiente de pressão entre os dois sistemas, com a baixa pressão sobre o oceano, na altura do litoral gaúcho, criou uma pista de vento que transportou ar muito frio para o Paraná, o que favoreceu a precipitação histórica de neve em muitos municípios, inclusive em Curitiba, que registrou neve pela manhã e início da tarde do dia 17 de julho”, explica Furlan.
SISTEMAS METEOROLÓGICOS – Para que todos os ingredientes desta fórmula estejam presentes e a neve aconteça, determinados sistemas meteorológicos devem atuar. “No ingresso de frentes frias com características continentais, o ar mais frio, associado a grandes massas de ar de origem polar, invadem o continente. Sistemas de alta pressão robustos no centro/centro-sul da Argentina, a leste da Cordilheira dos Andes, são determinantes. Esses sistemas trazem consigo intensas incursões polares, capazes de provocar uma redução expressiva nas temperaturas de forma generalizada”, diz Furlan.
Além do frio, também é necessária a presença de umidade que, além das frentes frias, pode ser transportada por ciclones extratropicais. “Estes sistemas dão origem a bandas de precipitação, que ao encontrarem um ar muito frio (normalmente em áreas mais elevadas), e também úmido, podem resultar na precipitação de neve, ou de chuva congelada (quando os flocos de neve derretem parcialmente no caminho, em direção ao solo)”, detalha Furlan.
O padrão de circulação atmosférica em eventos de nevada no Sul do Brasil tem sido objeto de estudos. A tese de doutorado da pesquisadora Márcia Vetromilla Fuentes (2009), do Instituto Federal de Santa Catarina, observa que, em todas as situações, é necessária a presença de vigorosos sistemas de alta pressão para ocorrência de neve de forma mais abrangente.
“Com o avanço da frente fria e com o ar polar ingressando na retaguarda, estão dadas as condições principais para precipitação invernal em forma de neve ou chuva congelada. Mas é com o aprofundamento de um sistema de baixa pressão, preferencialmente próximo do Litoral gaúcho ou do Uruguai, que na sequência dá origem a um ciclone extratropical, é que a ocorrência de neve pode ser mais abrangente”, afirma o meteorologista Leonardo Furlan.
Segundo ele, estudos apontam que, quanto mais intenso for o ciclone, favorecido por fortes ventos em níveis altos da atmosfera, maior será o transporte de umidade e consequentemente maior será o impulso do ar frio associado ao sistema de alta pressão. “Resumindo: com um sistema de alta pressão também intenso, o gradiente de pressão na região de interesse será maior, e consequentemente o transporte de ar frio e de umidade será mais eficiente”.
Fotos: Reproduções Fontes: Acervo de Folha de Londrina e Gazeta do Povo / Acervo Paraná Histórica/AEN/Simepar









